A Morte te dá Parabéns: sem bolo, sem guaraná e sem doce pra você.

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Tree (Jessica Rothe) é uma jovem estudante que trata mal os meninos, desdenha das amigas e não parece estar muito disposta a atender as ligações do pai no dia do aniversário dela. No fim do mesmo dia, no entanto, ela é brutalmente assassinada por um mascarado. Acontece que ela “sobrevive”, ou melhor, acorda no mesmo e fatídico dia, numa espécie de looping macabro, que termina sempre com a morte da garota. Repetir, seguidamente, o mesmo dia, por outro lado, dá a Tree a chance de investigar quem a está querendo morta e o porquê.

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Alguém dorme, ou morre, e acorda numa situação de onde não consegue escapar, presa num ciclo-temporal sem fim. A ideia é boa, e agoniante, na verdade, e você já deve ter ouvido falar dela por aí.  O universo – ou talvez uma divindade que te acha muito especial – por alguma razão introduziu um curioso componente Deus Ex-Machina na sua sua vida: você agora tem uma quantidade ilimitada de chances de reviver um único e específico dia, de modo que, nele, realize alguma coisa que, de alguma forma, vai te fazer tanto sair daquela prisão quanto se tornar uma pessoa melhor. E aí?

Exemplos não faltam nesse nosso amado e prolífico mundo das ficções. A Cultura Pop está até que bem empesteada de histórias assim. O primeiro exemplo, e mais clássico deles (o pai de todos), é o da comédia Feitiço do Tempo, de Harold Ramis, lançado em fevereiro de 1993.¹ Importante filme, que nos apresentava uma nova forma de brincar com o tempo e, daquilo, arrancar humor, Feitiço do Tempo ajudou a moldar a Cultura Pop. De lá até aqui, já teve muita, mas muita coisa bebendo daquela fonte. Triângulo do Medo (2009), Contra o Tempo (2011), No Limite do Amanhã (2014), ARQ (2016) e Antes que Eu Vá (2017) são alguns dos exemplos mais recentes.

Óbvio que todos esse filmes não são iguais uns aos outros. Todos partem, sim, do mesmo princípio, mas entre eles há diferenças textuais e de tom bem expressivas. A mais nova empreitada que se baseia na mesma ideia é o filme responsável por esse texto: A Morte te dá Parabéns, de Christopher Landon (Como Sobreviver a um Ataque Zumbi, 2015), um filme que, não satisfeito em captar a medula das produções sobre loop temporal, vai até outra fonte igualmente importante: o Horror cinematográfico, e incorpora em si, ou tenta, pelo menos, toda a essência dos Slasher Films – ou, mais especificamente, aqueles Slashers com antagonistas mascarados, como Halloween (1978) e Pânico (1996) – entregando um resultado que, embora obviamente não grandioso, rende tanto um Terrir eficiente quanto uma interessante homenagem.

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A direção de Christopher Landon, atenta ao que o roteiro de Scott Lobdell demandava, entrega um trabalho suficientemente ágil. O filme é direto porque devia ser direto e, mais importante, não se leva a sério; o que lhe permite ter seus erros (em parte) relevados com o devido perdão. A direção de Landom, mesmo sem grandes trunfos de condução, consegue utilizar elementos até eficazes para elevar, por exemplo, o senso de confusão de Tree Gelbman, a protagonista (bem interpretada pela lindíssima Jessica Rothe). Sobre isso, note: à medida com que o looping vai se agravando – ou seja, que as repetições vão se acumulando –, a protagonista vai se dando conta de que algo de errado não está certo naquilo tudo e, por isso, passa a se desesperar. É então que o diretor decide retratar a emoção da protagonista através do uso da câmera, desestabilizando propositalmente seus planos: usando planos holandeses, câmeras na mão, contidos shaky cams e o uso de um efeito semelhante ao celofane; tudo em busca de dar uma sensação mais acurada de desordem.

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Determinado em ter em Pânico parte de seu alicerce tramático, o texto do filme não se limita em ter um assassino mascarado e usa uma das maiores particularidades do longa de 96. Ao usar um vilão não-sobrenatural que se esconde atrás de uma máscara, a trama do filme vai na exata direção do que fez o jovem clássico de Wes Craven e aglutina vários suspeitos, que se revelam nas relações de proximidade com a protagonista. E isso força o espectador a adentrar a trama e tentar desvendar o mistério. Acontece que, aqui, o mistério não é lá tão misterioso assim, já que o diretor, intentando brincar com o espectador, esconde a ~mirabolante~ resposta em pequenas pistas não-tão-óbvias, mas identificáveis, durante o filme. Ele até tenta sublimar o próprio mistério dando uma consistente pista falsa sobre o assassino, mas, se o espectador consegue identificar as pistas anteriores, o mistério se torna previsível e o truque do filme perde a efetividade. De “interessante” mesmo nesse tópico somente o pueril fato de que, mesmo durante a revelação – quando no final, em retrospecção, o filme explica o enigma –, as pistas reais dadas pelo filme não são reveladas.

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O que temos aqui é, sem sombra de dúvidas, um filme divertido, não tanto por sua empreitada enquanto Thriller, isoladamente, mas por sua bem realizada união entre Comédia e Terror. Nesse tocante, a produção deve agradar aos fãs de ambos os gêneros. Ao fim, A Morte te dá Parabéns é um derivado sem tanta acuidade, mas eficaz, de Feitiço do Tempo – à quem o filme, sem vergonha na cara, referencia diretamente em sua última cena – e de Pânico, sem contar com a expertise de Craven e seu enciclopédico conhecimento sobre o Terror cinematográfico.


Por: Ericson Miguel.
Em: 15/10/2017.


[*] Há controvérsias quanto a isso. Feitiço do Tempo não é, em termos, o pri-
    meiro filme a tratar do assunto exatamente daquela forma – ele só é o mais
    influente. Em 1990, o curta-metragem 12:01 PM, de Jonathan Heap, baseado
    na obra de Richard A. Lupoff, e que trata do mesmo assunto foi lançado;
    sendo esta, portanto, a primeira produção a ter alguém preso num loop tem-
    poral. Isso, inclusive, rendeu uma confusão bonita com a Columbia Pictures.

 

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